MIDIAS PARA EDUCADORES E FORMADORES

La vida que voa!!!

Batalha Cultural

Os direitos de propriedade intelectual
Mouhamadou Moustapha Lo
Por trás da expressão “Direitos de propriedade intelectual” esconde-se, na realidade, uma batalha cultural, política e comercial mundial. Não vivemos nós em um mundo no qual alguns grupos industriais dos países do Norte, ao monopolizarem algumas patentes ou licenças, conseguem impor aos demais (a maioria) limites para o uso de obras e de trabalhos?
No momento atual, a tendência dominante visa à relacionar os “direitos de propriedade intelectual” com seu único aspecto econômico. É isso que explica porque as negociações centrais ocorreram sob a égide da OMC (Organização Mundial do Comércio) e não da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, ciência e cultura) ou da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual). Mesmo a Cúpula mundial da Sociedade da Informação evita o tema, visto que se trata do principal fundamento jurídico e social para a criação e a transmissão do conhecimento. Mas esta situação está mudando e numerosos países do Sul se unem, em todas as estruturas que debatem a propriedade intelectual, a chamar a atenção para suas preocupações. Assim, quinze países propõem à OMPI a redação de uma “Iniciativa para o desenvolvimento”, o que concorda com a ação de entidades da sociedade civil que desejam redigir um tratado para o “livre acesso ao conhecimento” . Do mesmo modo, a proteção da “diversidade cultural” tem sido defendida no seio da UNESCO, recusando-se o alinhamento da criação sobre as regras do comércio. Igualmente, os software livres, as licenças do tipo Creative Commons, a defesa de um patrimônio digital mundial e o papel central das bibliotecas na circulação da informação digital são idéias defendidas no seio da SMSI tanto pela sociedade civil quanto por alguns países em desenvolvimento.
O que cobrem os “direitos de propriedade intelectual”?
Os direitos de propriedade intelectual constituem um conjunto de normas jurídicas às quais se pode apelar para fins de proteção, de indenização e de manutenção dos direitos ligados a uma “criação intelectual” (invenção, idéia técnica, obra artística, design de objetos ou marca registrada, etc.) Eles cobrem diversos setores: no cerne da propriedade literária e artística (direitos autorais ou copyright) e da propriedade industrial (patentes, a marca, desenhos ou modelos), mais também cada vez mais as regras do direito e os tratados relacionados com os saberes nativos e tradicionais, a biodiversidades, os direitos dos camponeses ou a saúde pública.
Trata-se de uma vontade recente, datada dos anos 1980, que provoca o agrupamento dessas abordagens em um único quadro global tratando de todas as obras e trabalhos imateriais. O termo consagrado nos dias de hoje no direito e nos debates mundiais sobre “Direitos da propriedade intelectual” é a tradução de uma opção política e econômica que tem por fim considerar a “propriedade intelectual” como um “direito natural”, a exemplo da propriedade da terra ou do meios de produção. Ora isso é altamente contradito tanto pela história como pela análise das conseqüências dramáticas que podem ocorrer com essa medida se ela for levada a efeito.
O direito de propriedade intelectual tem uma longa história. A partir do “Statute of Anne”, lei britânica, primeira tentativa de redigir um “direito do autor” em 1710, a propriedade literária foi concebida como um direito de equilíbrio entre os interesses da sociedade (“estimular os homens esclarecidos a compor e escrever livros úteis”) e os dos autores. Esses últimos dispõem do monopólio de utilização de suas obras, que não podem ser editadas ou representadas sem seu consentimento. Mas numerosas “exceções e isenções” estão presentes em todas as legislações que tratam da criação. Estas visam à defender a capacidade da sociedade de utilizar o conhecimento que está incorporado nas obras e a facilitar o acesso a elas e sua circulação: exceções para a educação e as bibliotecas, direito de cópias privadas, direito de citação, direito de caricatura, direito de transcrição para favorecer o acesso para as pessoas incapacitadas, etc. Acresça-se que, tradicionalmente, a propriedade literária e artística refere-se à forma da criação e não às idéias que estão contidas nela. Ela engloba não só a obra de arte original e a escrita criadora, mas igualmente as bases de dados informatizadas e os programas de informática.
Esta relação de equilíbrio entre os criadores e a sociedade se manifesta plenamente na existência de um “domínio público” no qual encontram-se obras transcorrido um determinado período (hoje 70 anos após a morte do autor, 50 anos após sua difusão para as interpretações musicais, 20 anos após a liberação para as patentes, 70 anos após seu depósito para os desenhos e modelos, etc.). Esse “domínio público” enriquece-se, também, com os trabalhos criados pela pujança pública (leis, registros, decisões, relatórios, etc.), as descobertas científicas e os dados experimentais (decodificação do genoma humano, teoremas matemáticos, etc.). Enfim, percebe-se o surgimento da noção de “domínio público consentido”, na qual os próprios autores e criadores decidem converter suas obras no momento de sua criação. É, por exemplo, o caso dos software livres, das licenças de uso do tipo Creative Commons, arquivos de dados de conhecimentos, arquivos abertos para a publicação da ciência...
O sistema de patentes por seu lado, concede direitos exclusivos de propriedade sobre o objeto da patente, mais precisamente sobre as “reivindicações” que se seguem à descrição técnica da invenção. Esse sistema oferece a seu titular o direito de impedir que qualquer outra pessoa utilize, fabrique ou venda o objeto da patente, ou se utilize da técnica ou do processo durante determinado período, em troca da inscrição de seu conhecimento em um documento técnico. Em sua origem, as patentes foram concebidas não para impedir o acesso ao conhecimento mas, ao contrário, para proporcioná-lo. Isso permitiu aos países então emergentes, como os Estados Unidos durante todo o século XIX, utilizar o conhecimento anterior ou “estrangeiro”, pois as patentes deviam designar os países aos quais se aplicam. Assim pois, a patente é destinada a estimular a criatividade e a invenção e é ela um privilégio concedido a indivíduos em benefício da sociedade.
O mérito e a pertinência do “patenteamento” não atinge a unanimidade. As negociações comerciais mundiais atuais têm por fim impedir o uso pelos países em desenvolvimento dessa oportunidade econômica. Os países em desenvolvimento desejam estender a todo o mundo as suas próprias normas, o que representa um problema de equilíbrio para os países do Sul que não possuem as capacidades de investimento necessárias para esta corrida contra o relógio.
A propriedade intelectual diante das redes e da tecnologia digital
Os computadores e em maior margem a digitalização da cultura e do conhecimento, de um lado, e as redes que oferecem a capacidade de fazer circular rapidamente esses objetos digitais em escala mundial de outro, abrem um novo desafio às normas da propriedade intelectual. Como redigir, em escala global, um novo equilíbrio que permita favorecer a criação e a inovação ao mesmo tempo que garanta o acesso de todos ao conhecimento e o compartilhamento mundial dos benefícios da pesquisa?
Os novos suportes nascidos da emergência das TICs provocam a aceleração das inovações e a mundialização dos intercâmbios. Conseqüentemente, a urgência impõe uma outra abordagem, um direito da propriedade intelectual novo que afaste todo diktat dos grupos industriais dos países do Norte. Os direitos de propriedade intelectual não podem ser concebidos unicamente como uma extensão do monopólio de utilização de um pensamento ou de uma obra intelectual, mas devem levar em conta outros interesses. A título de exemplo, a aceleração da inovação em setores como os da informática ou das biotecnologias acentua as divergências de posição entre os países do Norte e os do Sul. Os direitos de propriedade intelectuais devem consagrar um direito de propriedade ao lucro dos criadores, apresentando limites por meio de obrigações em relação aos usuários, em nome do direito de acesso às informações, um direito fundamental.
A fim de delimitar adequadamente os desafios do debate atual, é preciso começar por ter uma visão clara do que é compreendido pela expressão “direitos de propriedade intelectuais”. A abordagem jurídica nos oferece dois tipos de visões: estática ou dinâmica.
A primeira consiste em se ficar satisfeito com herança, tradições, privilégios . Os direitos de propriedade intelectuais aparecem, assim, como um conjunto de textos cuja aplicação suscita dúvidas. Foram definidas numerosas normas nacionais, regionais e internacionais, destinadas principalmente a reforçar o monopólio sobre as obras e as invenções dos autores, dos inventores e, o mais importante, das empresas que valorizam e distribuem essas criações. Esta tendência a editar leis de controle da circulação do conhecimento, acentuada pela implementação de “medidas técnicas de proteção” diretamente no interior dos documentos digitais, corresponderá aos desafios atuais da sociedade da informação? Esta concepção ocidental da questão é contestada pelos países do Sul, vítimas da regra do primeiro a chegar, primeiro a servir-se. Toda criação implica no início do processo uma proteção mas convém avaliá-la, equilibrá-la, de modo a não frear o processo de produção ou de acesso à informação no final.
A segunda visão, dinâmica, considera que os direitos intelectuais devem facilitar antes de mais nada a expressão de idéias, sua circulação transversalmente às tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e até chegar à sua reutilização sistemática. A sociedade da informação modifica as modalidades da criação e sobretudo da transmissão das obras. As TIC, abrindo outras perspectivas com uma maior difusão das obras, criam novamente modelos econômicos de um lado e, de outro, permitem uma maior acompanhamentos dos usos. Isso é válido tanto para as pessoas físicas quanto para as indústrias e os países em desenvolvimento. Nesse contexto, os países do Sul trabalham a favor do reforço e ampliação dos direitos dos usuários. Eles preconizam a comprovação da inventividade nos mecanismos jurídicos a serem introduzidos. Além disso, segundo eles, não seria pelo fato de que um grupo de países industrializados detenha o monopólio mundial de patentes (97% das patentes são registradas para os países desenvolvidos) que esses países têm o direito de exigir dos países em desenvolvimento um alinhamento nos termos de suas próprias normas. Isso significa a reprodução da dominação fazendo com que esses países concorram com fortes desvantagens para serem admitidos no seio do sistema mundial de intercâmbio. Trata-se, também, do controle do saber (aí compreendida também a censura). Martin Khor considera que para favorecer o livre acesso mundial ao conhecimento, convém limitar “o alcance do copyright e das patentes em favor dos consumidores e do interesse público”.
Uma evolução mercantil que destrói o equilíbrio
A controvérsia em curso foi suscitada pela atitude de um grande número de grupos de pressão - atuando no universo da criação ou novas profissões da tecnologia digital - que desejam agir sobre os direitos de propriedade intelectuais. Sua ação concertada conduz à imposição da idéia de uma mercantilização da informação, uma visão estritamente econômica da propriedade intelectual . Essa evolução se dá às expensas dos bens comuns da informação e das exceções aos usos que favoreçam a circulação do conhecimento. Além disso, ela visa à ampliar a continuidade do campo da propriedade intelectual, chegando mesmo a tocar as regras fundamentais e os setores vitais para a humanidade (medicamentos, genética, patenteamento de organismos vivos, sementes agrícolas, conhecimentos tradicionais, dados geográficos e botânicos, etc.). Isso confere às questões relativas ao direito da propriedade intelectual uma nova importância no universo digital e, em maior margem, em todas as técnicas da era da informação.
A via do lucro máximo impulsiona os grupos industriais dos países do Norte a patentear tudo que puder ser imaginado para o futuro. Eles colocam, também, numerosos entraves às técnicas em gestação, assim sendo os conhecimentos, freqüentemente, encontram-se longe de serem formalizados. A parte descritiva das patentes registradas perde, assim, seu interesse para a transmissão do saber técnico. A patente presta-se mais para se explorar tranqüilamente o futuro do que para proteger uma inovação existente. Como resultado, limita a pesquisa e o desenvolvimento . Aumenta também de maneira inevitável o fluxo de pagamentos dos países do Sul para os países do Norte, a título de direitos sobre posse (royalties) e de obrigações aos detentores das patentes.
Essa abordagem conduz à multiplicação de patentes voltadas diretamente para o conhecimento (algoritmos e software de informática, seqüências genéticas), as formas de organização do mundo (patentes ditas de “método”), as moléculas químicas (e não apenas seu processo de fabricação), os conhecimentos ancestrais (a “biopirataria”), os vegetais, os animais e em sentido mais amplo todos os seres vivos. Com a “patente de organismos vivos”, que consiste em oferecer a uma empresa ou um indivíduo a propriedade sobre um componente do ser vivo, descobre-se uma versão intelectualmente aberrante e humanamente inaceitável da propriedade industrial. É preciso ter em mente que até os anos 1990, o sistema de patentes envolvia, essencialmente, os objetos inanimados e os processos mecânicos.
Ao se apoiar sobre o registro dessas patentes, as empresas transnacionais desejam proibir aos países do Sul o uso dos conhecimentos para lutar contra as calamidades que as oprimem. A mais perfeita ilustração encontra-se no processo intentado por diversas multinacionais do setor farmacêutico contra o governo sul-africano quando este procurou democratizar o acesso ao atendimento de saúde para os doentes de aids . As exceções que ainda existem nos tratados internacionais, como o tratado da OMC, por exemplo sobre as licenças legais dos medicamentos, por razões de saúde pública, são reconsideradas a cada negociação e demolidas indiretamente pelo viés das negociações bilaterais.
No domínio cultural, assiste-se igualmente à uma ampliação do campo dos direitos autorais para além de um sistema equilibrado. Novos setores são corroídos (desde as publicações científicas até aulas de professores), produções mecânica são encontradas sob a égide do direito autoral (ex.: as fotografias automáticas, como aquelas de satélites, entretanto tão úteis para a prevenção de catástrofes). As empresas intermediárias, como as mídias ou as editoras científicas, apóiam-se numa interpretação de mão única do direito do autor para adicionar restrições ao livre acesso à cultura, principalmente na escola, nas universidades e nas bibliotecas.
Essa ampliação da propriedade, bem como a ampliação dos domínios cobertos, segue dois eixos: o do tempo (alongamento da duração da propriedade) e o dos usos. Com as “medidas de proteção técnica” (DRM: digital right management systems) ou o “direito dos difusores” (“broadcast flag”), os detentores de direitos desejam poder acompanhar os usos privados dos documentos digitais, o que constitui uma grave ameaça para a liberdade de expressão, a vida privada e os Direitos do homem.
Até o presente, todos os mecanismos capitalistas de difusão da informação tiveram por fim criar artificialmente uma escassez de informações. Trata-se de uma estratégia de monopolização. Ora, no domínio do conhecimento, a posse por um não significa absolutamente expropriação dos outros. Pode-se possuir completamente uma informação e intercambiá-la sem por isso tornarmo-nos expropriados.
É a busca por um equilíbrio, que leve em conta essa natureza dos bens imateriais, que a sociedade civil, em conjunto com os Estados em desenvolvimento, almeja com a ação levada a efeito em escala mundial para obter um “Tratado para o livre acesso ao conhecimento”. Trata-se de permitir a todos, e especialmente aos países em desenvolvimento, utilizar os conhecimentos da humanidade para confrontar os males do século XXI. Construir um domínio público universal da informação aparece como uma necessidade urgente. De agora em diante, a técnica nos proporciona as condições dessa realização. É preciso que as regras jurídicas e econômicas permitam a realização.
A proteção dos direitos intelectuais não deve ser um obstáculo em um mundo no qual todos poderiam produzir, intercambiar e contribuir para com os potenciais intelectuais e os recursos protegidos, quer dizer para um domínio público aberto, de recursos comuns. Este domínio público universal das informações supõe uma definição clara e perfeita dos direitos reconhecidos, tanto aos criadores quanto aos usuários.
Todas as invenções merecem recompensas pelos esforços despendidos. Os países do Sul não contestam essa realidade em nenhum aspecto. Entretanto, somente as inovações que são verdadeiramente únicas, novas ou criativas merecem ser protegidas. Essa opção equivaleria a recompensar a criação e a inovação e não a favorecer os detentores de portfólios dos direitos de propriedade. A época das restrições deve ser encerrada pois “quanto mais as pessoas tiverem acesso livre aos organismos intelectuais, mais elas serão capazes e estarão desejosas de consagrar seu tempo a acessar e a criar entidades de valor” .
A recompensa deve ser a resposta a qualquer esforço inovador. Mas, nem tudo deve ser patenteado. Em princípio, todas as invenções intelectuais devem estar destinadas ao domínio público, a menos que seja necessário possibilitar sua apropriação temporária, e mesmo assim, somente se isso não significar discriminações inaceitáveis. A atribuição de um direito de propriedade, a um preço justo, não deve ser aceita a menos que o investimento em questão seja tão importante que leve à exclusão de qualquer retribuição econômica sistemática.
O reconhecimento de um valor primordial de bens comuns da informação livremente acessíveis e utilizáveis por todos está longe de ter sido atingido. No presente momento, o exemplo mais visível são os softwares livres. É o único bem comum informático que atingiu sua maturidade. Seu uso se generaliza pouco a pouco, pelos usuários privados, mas também no núcleo das administrações e dos serviços de numerosos países ou coletividades territoriais. É preciso caminhar mais rapidamente e permitir a todos o acesso às outras fontes de informação. Para isso, passa uma solução pela redução da duração da propriedade antes do acesso ao domínio público. Já chegou a hora de torná-la suficientemente curta de modo que a acessibilidade se torne mais fácil e mais rápida em nossos dias.
O direito é uma formalização das relações sociais. Nesses termos, os direitos de propriedade intelectual representam uma questão política que deve ser discutida como tal pelos governos e pela sociedade civil. Considerada a importância das informações para a vida cotidiana, para a educação das gerações futuras e para o desenvolvimento econômico sustentável e a proteção da natureza, convém assegurar sua proteção pelos Estados nisso associando os usuários e os poderes econômicos e científicos. Não deve ser o mercado que deve ditar sua lei e não podemos deixar se instalar uma situação na qual grandes grupos compartilhem entre eles todo o conhecimento do mundo. As sociedades da informação não serão realmente inclusivas se não existir um domínio público universal da informação funcionando em benefício de todos. A verdadeira harmonização dos direitos de propriedade intelectual passa por um ¬reequilíbrio entre os proprietários e os usuários, como também entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. A informação deve servir à humanidade e que no saber resida o vínculo com o desenvolvimento.
http://vecam.org

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Propriedade Intelectual e o batalha cultural

Os direitos de propriedade intelectual


Mouhamadou Moustapha Lo

Por trás da expressão “Direitos de propriedade intelectual” esconde-se, na realidade, uma batalha cultural, política e comercial mundial. Não vivemos nós em um mundo no qual alguns grupos industriais dos países do Norte, ao monopolizarem algumas patentes ou licenças, conseguem impor aos demais (a maioria) limites para o uso de obras e de trabalhos?
No momento atual, a tendência dominante visa à relacionar os “direitos de propriedade intelectual” com seu único aspecto econômico. É isso que explica porque as negociações centrais ocorreram sob a égide da OMC (Organização Mundial do Comércio) e não da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, ciência e cultura) ou da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual). Mesmo a Cúpula mundial da Sociedade da Informação evita o tema, visto que se trata do principal fundamento jurídico e social para a criação e a transmissão do conhecimento. Mas esta situação está mudando e numerosos países do Sul se unem, em todas as estruturas que debatem a propriedade intelectual, a chamar a atenção para suas preocupações. Assim, quinze países propõem à OMPI a redação de uma “Iniciativa para o desenvolvimento”, o que concorda com a ação de entidades da sociedade civil que desejam redigir um tratado para o “livre acesso ao conhecimento” . Do mesmo modo, a proteção da “diversidade cultural” tem sido defendida no seio da UNESCO, recusando-se o alinhamento da criação sobre as regras do comércio. Igualmente, os software livres, as licenças do tipo Creative Commons, a defesa de um patrimônio digital mundial e o papel central das bibliotecas na circulação da informação digital são idéias defendidas no seio da SMSI tanto pela sociedade civil quanto por alguns países em desenvolvimento.
O que cobrem os “direitos de propriedade intelectual”?
Os direitos de propriedade intelectual constituem um conjunto de normas jurídicas às quais se pode apelar para fins de proteção, de indenização e de manutenção dos direitos ligados a uma “criação intelectual” (invenção, idéia técnica, obra artística, design de objetos ou marca registrada, etc.) Eles cobrem diversos setores: no cerne da propriedade literária e artística (direitos autorais ou copyright) e da propriedade industrial (patentes, a marca, desenhos ou modelos), mais também cada vez mais as regras do direito e os tratados relacionados com os saberes nativos e tradicionais, a biodiversidades, os direitos dos camponeses ou a saúde pública.
Trata-se de uma vontade recente, datada dos anos 1980, que provoca o agrupamento dessas abordagens em um único quadro global tratando de todas as obras e trabalhos imateriais. O termo consagrado nos dias de hoje no direito e nos debates mundiais sobre “Direitos da propriedade intelectual” é a tradução de uma opção política e econômica que tem por fim considerar a “propriedade intelectual” como um “direito natural”, a exemplo da propriedade da terra ou do meios de produção. Ora isso é altamente contradito tanto pela história como pela análise das conseqüências dramáticas que podem ocorrer com essa medida se ela for levada a efeito.
O direito de propriedade intelectual tem uma longa história. A partir do “Statute of Anne”, lei britânica, primeira tentativa de redigir um “direito do autor” em 1710, a propriedade literária foi concebida como um direito de equilíbrio entre os interesses da sociedade (“estimular os homens esclarecidos a compor e escrever livros úteis”) e os dos autores. Esses últimos dispõem do monopólio de utilização de suas obras, que não podem ser editadas ou representadas sem seu consentimento. Mas numerosas “exceções e isenções” estão presentes em todas as legislações que tratam da criação. Estas visam à defender a capacidade da sociedade de utilizar o conhecimento que está incorporado nas obras e a facilitar o acesso a elas e sua circulação: exceções para a educação e as bibliotecas, direito de cópias privadas, direito de citação, direito de caricatura, direito de transcrição para favorecer o acesso para as pessoas incapacitadas, etc. Acresça-se que, tradicionalmente, a propriedade literária e artística refere-se à forma da criação e não às idéias que estão contidas nela. Ela engloba não só a obra de arte original e a escrita criadora, mas igualmente as bases de dados informatizadas e os programas de informática.
Esta relação de equilíbrio entre os criadores e a sociedade se manifesta plenamente na existência de um “domínio público” no qual encontram-se obras transcorrido um determinado período (hoje 70 anos após a morte do autor, 50 anos após sua difusão para as interpretações musicais, 20 anos após a liberação para as patentes, 70 anos após seu depósito para os desenhos e modelos, etc.). Esse “domínio público” enriquece-se, também, com os trabalhos criados pela pujança pública (leis, registros, decisões, relatórios, etc.), as descobertas científicas e os dados experimentais (decodificação do genoma humano, teoremas matemáticos, etc.). Enfim, percebe-se o surgimento da noção de “domínio público consentido”, na qual os próprios autores e criadores decidem converter suas obras no momento de sua criação. É, por exemplo, o caso dos software livres, das licenças de uso do tipo Creative Commons, arquivos de dados de conhecimentos, arquivos abertos para a publicação da ciência...
O sistema de patentes por seu lado, concede direitos exclusivos de propriedade sobre o objeto da patente, mais precisamente sobre as “reivindicações” que se seguem à descrição técnica da invenção. Esse sistema oferece a seu titular o direito de impedir que qualquer outra pessoa utilize, fabrique ou venda o objeto da patente, ou se utilize da técnica ou do processo durante determinado período, em troca da inscrição de seu conhecimento em um documento técnico. Em sua origem, as patentes foram concebidas não para impedir o acesso ao conhecimento mas, ao contrário, para proporcioná-lo. Isso permitiu aos países então emergentes, como os Estados Unidos durante todo o século XIX, utilizar o conhecimento anterior ou “estrangeiro”, pois as patentes deviam designar os países aos quais se aplicam. Assim pois, a patente é destinada a estimular a criatividade e a invenção e é ela um privilégio concedido a indivíduos em benefício da sociedade.
O mérito e a pertinência do “patenteamento” não atinge a unanimidade. As negociações comerciais mundiais atuais têm por fim impedir o uso pelos países em desenvolvimento dessa oportunidade econômica. Os países em desenvolvimento desejam estender a todo o mundo as suas próprias normas, o que representa um problema de equilíbrio para os países do Sul que não possuem as capacidades de investimento necessárias para esta corrida contra o relógio.
A propriedade intelectual diante das redes e da tecnologia digital
Os computadores e em maior margem a digitalização da cultura e do conhecimento, de um lado, e as redes que oferecem a capacidade de fazer circular rapidamente esses objetos digitais em escala mundial de outro, abrem um novo desafio às normas da propriedade intelectual. Como redigir, em escala global, um novo equilíbrio que permita favorecer a criação e a inovação ao mesmo tempo que garanta o acesso de todos ao conhecimento e o compartilhamento mundial dos benefícios da pesquisa?
Os novos suportes nascidos da emergência das TICs provocam a aceleração das inovações e a mundialização dos intercâmbios. Conseqüentemente, a urgência impõe uma outra abordagem, um direito da propriedade intelectual novo que afaste todo diktat dos grupos industriais dos países do Norte. Os direitos de propriedade intelectual não podem ser concebidos unicamente como uma extensão do monopólio de utilização de um pensamento ou de uma obra intelectual, mas devem levar em conta outros interesses. A título de exemplo, a aceleração da inovação em setores como os da informática ou das biotecnologias acentua as divergências de posição entre os países do Norte e os do Sul. Os direitos de propriedade intelectuais devem consagrar um direito de propriedade ao lucro dos criadores, apresentando limites por meio de obrigações em relação aos usuários, em nome do direito de acesso às informações, um direito fundamental.
A fim de delimitar adequadamente os desafios do debate atual, é preciso começar por ter uma visão clara do que é compreendido pela expressão “direitos de propriedade intelectuais”. A abordagem jurídica nos oferece dois tipos de visões: estática ou dinâmica.
A primeira consiste em se ficar satisfeito com herança, tradições, privilégios . Os direitos de propriedade intelectuais aparecem, assim, como um conjunto de textos cuja aplicação suscita dúvidas. Foram definidas numerosas normas nacionais, regionais e internacionais, destinadas principalmente a reforçar o monopólio sobre as obras e as invenções dos autores, dos inventores e, o mais importante, das empresas que valorizam e distribuem essas criações. Esta tendência a editar leis de controle da circulação do conhecimento, acentuada pela implementação de “medidas técnicas de proteção” diretamente no interior dos documentos digitais, corresponderá aos desafios atuais da sociedade da informação? Esta concepção ocidental da questão é contestada pelos países do Sul, vítimas da regra do primeiro a chegar, primeiro a servir-se. Toda criação implica no início do processo uma proteção mas convém avaliá-la, equilibrá-la, de modo a não frear o processo de produção ou de acesso à informação no final.
A segunda visão, dinâmica, considera que os direitos intelectuais devem facilitar antes de mais nada a expressão de idéias, sua circulação transversalmente às tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e até chegar à sua reutilização sistemática. A sociedade da informação modifica as modalidades da criação e sobretudo da transmissão das obras. As TIC, abrindo outras perspectivas com uma maior difusão das obras, criam novamente modelos econômicos de um lado e, de outro, permitem uma maior acompanhamentos dos usos. Isso é válido tanto para as pessoas físicas quanto para as indústrias e os países em desenvolvimento. Nesse contexto, os países do Sul trabalham a favor do reforço e ampliação dos direitos dos usuários. Eles preconizam a comprovação da inventividade nos mecanismos jurídicos a serem introduzidos. Além disso, segundo eles, não seria pelo fato de que um grupo de países industrializados detenha o monopólio mundial de patentes (97% das patentes são registradas para os países desenvolvidos) que esses países têm o direito de exigir dos países em desenvolvimento um alinhamento nos termos de suas próprias normas. Isso significa a reprodução da dominação fazendo com que esses países concorram com fortes desvantagens para serem admitidos no seio do sistema mundial de intercâmbio. Trata-se, também, do controle do saber (aí compreendida também a censura). Martin Khor considera que para favorecer o livre acesso mundial ao conhecimento, convém limitar “o alcance do copyright e das patentes em favor dos consumidores e do interesse público”.
Uma evolução mercantil que destrói o equilíbrio
A controvérsia em curso foi suscitada pela atitude de um grande número de grupos de pressão - atuando no universo da criação ou novas profissões da tecnologia digital - que desejam agir sobre os direitos de propriedade intelectuais. Sua ação concertada conduz à imposição da idéia de uma mercantilização da informação, uma visão estritamente econômica da propriedade intelectual . Essa evolução se dá às expensas dos bens comuns da informação e das exceções aos usos que favoreçam a circulação do conhecimento. Além disso, ela visa à ampliar a continuidade do campo da propriedade intelectual, chegando mesmo a tocar as regras fundamentais e os setores vitais para a humanidade (medicamentos, genética, patenteamento de organismos vivos, sementes agrícolas, conhecimentos tradicionais, dados geográficos e botânicos, etc.). Isso confere às questões relativas ao direito da propriedade intelectual uma nova importância no universo digital e, em maior margem, em todas as técnicas da era da informação.
A via do lucro máximo impulsiona os grupos industriais dos países do Norte a patentear tudo que puder ser imaginado para o futuro. Eles colocam, também, numerosos entraves às técnicas em gestação, assim sendo os conhecimentos, freqüentemente, encontram-se longe de serem formalizados. A parte descritiva das patentes registradas perde, assim, seu interesse para a transmissão do saber técnico. A patente presta-se mais para se explorar tranqüilamente o futuro do que para proteger uma inovação existente. Como resultado, limita a pesquisa e o desenvolvimento . Aumenta também de maneira inevitável o fluxo de pagamentos dos países do Sul para os países do Norte, a título de direitos sobre posse (royalties) e de obrigações aos detentores das patentes.
Essa abordagem conduz à multiplicação de patentes voltadas diretamente para o conhecimento (algoritmos e software de informática, seqüências genéticas), as formas de organização do mundo (patentes ditas de “método”), as moléculas químicas (e não apenas seu processo de fabricação), os conhecimentos ancestrais (a “biopirataria”), os vegetais, os animais e em sentido mais amplo todos os seres vivos. Com a “patente de organismos vivos”, que consiste em oferecer a uma empresa ou um indivíduo a propriedade sobre um componente do ser vivo, descobre-se uma versão intelectualmente aberrante e humanamente inaceitável da propriedade industrial. É preciso ter em mente que até os anos 1990, o sistema de patentes envolvia, essencialmente, os objetos inanimados e os processos mecânicos.
Ao se apoiar sobre o registro dessas patentes, as empresas transnacionais desejam proibir aos países do Sul o uso dos conhecimentos para lutar contra as calamidades que as oprimem. A mais perfeita ilustração encontra-se no processo intentado por diversas multinacionais do setor farmacêutico contra o governo sul-africano quando este procurou democratizar o acesso ao atendimento de saúde para os doentes de aids . As exceções que ainda existem nos tratados internacionais, como o tratado da OMC, por exemplo sobre as licenças legais dos medicamentos, por razões de saúde pública, são reconsideradas a cada negociação e demolidas indiretamente pelo viés das negociações bilaterais.
No domínio cultural, assiste-se igualmente à uma ampliação do campo dos direitos autorais para além de um sistema equilibrado. Novos setores são corroídos (desde as publicações científicas até aulas de professores), produções mecânica são encontradas sob a égide do direito autoral (ex.: as fotografias automáticas, como aquelas de satélites, entretanto tão úteis para a prevenção de catástrofes). As empresas intermediárias, como as mídias ou as editoras científicas, apóiam-se numa interpretação de mão única do direito do autor para adicionar restrições ao livre acesso à cultura, principalmente na escola, nas universidades e nas bibliotecas.
Essa ampliação da propriedade, bem como a ampliação dos domínios cobertos, segue dois eixos: o do tempo (alongamento da duração da propriedade) e o dos usos. Com as “medidas de proteção técnica” (DRM: digital right management systems) ou o “direito dos difusores” (“broadcast flag”), os detentores de direitos desejam poder acompanhar os usos privados dos documentos digitais, o que constitui uma grave ameaça para a liberdade de expressão, a vida privada e os Direitos do homem.
Até o presente, todos os mecanismos capitalistas de difusão da informação tiveram por fim criar artificialmente uma escassez de informações. Trata-se de uma estratégia de monopolização. Ora, no domínio do conhecimento, a posse por um não significa absolutamente expropriação dos outros. Pode-se possuir completamente uma informação e intercambiá-la sem por isso tornarmo-nos expropriados.
É a busca por um equilíbrio, que leve em conta essa natureza dos bens imateriais, que a sociedade civil, em conjunto com os Estados em desenvolvimento, almeja com a ação levada a efeito em escala mundial para obter um “Tratado para o livre acesso ao conhecimento”. Trata-se de permitir a todos, e especialmente aos países em desenvolvimento, utilizar os conhecimentos da humanidade para confrontar os males do século XXI. Construir um domínio público universal da informação aparece como uma necessidade urgente. De agora em diante, a técnica nos proporciona as condições dessa realização. É preciso que as regras jurídicas e econômicas permitam a realização.
A proteção dos direitos intelectuais não deve ser um obstáculo em um mundo no qual todos poderiam produzir, intercambiar e contribuir para com os potenciais intelectuais e os recursos protegidos, quer dizer para um domínio público aberto, de recursos comuns. Este domínio público universal das informações supõe uma definição clara e perfeita dos direitos reconhecidos, tanto aos criadores quanto aos usuários.
Todas as invenções merecem recompensas pelos esforços despendidos. Os países do Sul não contestam essa realidade em nenhum aspecto. Entretanto, somente as inovações que são verdadeiramente únicas, novas ou criativas merecem ser protegidas. Essa opção equivaleria a recompensar a criação e a inovação e não a favorecer os detentores de portfólios dos direitos de propriedade. A época das restrições deve ser encerrada pois “quanto mais as pessoas tiverem acesso livre aos organismos intelectuais, mais elas serão capazes e estarão desejosas de consagrar seu tempo a acessar e a criar entidades de valor” .
A recompensa deve ser a resposta a qualquer esforço inovador. Mas, nem tudo deve ser patenteado. Em princípio, todas as invenções intelectuais devem estar destinadas ao domínio público, a menos que seja necessário possibilitar sua apropriação temporária, e mesmo assim, somente se isso não significar discriminações inaceitáveis. A atribuição de um direito de propriedade, a um preço justo, não deve ser aceita a menos que o investimento em questão seja tão importante que leve à exclusão de qualquer retribuição econômica sistemática.
O reconhecimento de um valor primordial de bens comuns da informação livremente acessíveis e utilizáveis por todos está longe de ter sido atingido. No presente momento, o exemplo mais visível são os softwares livres. É o único bem comum informático que atingiu sua maturidade. Seu uso se generaliza pouco a pouco, pelos usuários privados, mas também no núcleo das administrações e dos serviços de numerosos países ou coletividades territoriais. É preciso caminhar mais rapidamente e permitir a todos o acesso às outras fontes de informação. Para isso, passa uma solução pela redução da duração da propriedade antes do acesso ao domínio público. Já chegou a hora de torná-la suficientemente curta de modo que a acessibilidade se torne mais fácil e mais rápida em nossos dias.
O direito é uma formalização das relações sociais. Nesses termos, os direitos de propriedade intelectual representam uma questão política que deve ser discutida como tal pelos governos e pela sociedade civil. Considerada a importância das informações para a vida cotidiana, para a educação das gerações futuras e para o desenvolvimento econômico sustentável e a proteção da natureza, convém assegurar sua proteção pelos Estados nisso associando os usuários e os poderes econômicos e científicos. Não deve ser o mercado que deve ditar sua lei e não podemos deixar se instalar uma situação na qual grandes grupos compartilhem entre eles todo o conhecimento do mundo. As sociedades da informação não serão realmente inclusivas se não existir um domínio público universal da informação funcionando em benefício de todos. A verdadeira harmonização dos direitos de propriedade intelectual passa por um ¬reequilíbrio entre os proprietários e os usuários, como também entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. A informação deve servir à humanidade e que no saber resida o vínculo com o desenvolvimento.
http://vecam.org

Alvin Toffler e o choque do futuro

ENTREVISTA FALANDO SOBRE O BIG BROTHER
O autor de O Choque do Futuro diz que a tendência é sermos vigiados o tempo todo por câmeras digitais.

Entrevista a VEJA : Alvin Toffler por Rosa Zakabi

Veja – As mudanças globais provocadas pelo ataque ao World Trade Center arruinaram as previsões de muitos futurólogos. O ataque era imprevisível?
Alvin Toffler – Os ataques realmente mudaram o mundo, mas não eram imprevisíveis. Em meus livros lançados há trinta anos, eu já falava sobre o possível crescimento do terrorismo e suas conseqüências para o mundo. Em um deles, apontava o World Trade Center como um dos pontos mais suscetíveis a ataques terroristas. Mas previa um tipo de atentado diferente, não por aviões, e sim um ataque eletrônico, com bombas acionadas por meio de computadores ou algo assim. Não era o único que acreditava nisso. Muitos consultores e especialistas já indicavam essa tendência, mas ninguém levava a sério. Ninguém imaginava que a situação poderia chegar a esse extremo.
Veja – Por que o terrorismo não recorre a armas de maior sofisticação tecnológica?
Toffler – Por mais que ocorram ataques sem uso de tecnologia sofisticada, foram os avanços da tecnologia que contribuíram para o crescimento do terrorismo. Ao mesmo tempo que esses avanços contribuem para o desenvolvimento da economia e da sociedade, também podem ser usados com propósitos criminosos e violentos e, assim, pôr tudo a perder. A tecnologia deu novo incentivo à produção de armas. O problema não é o fato de estarmos produzindo armas mais poderosas, e sim que elas estão cada vez mais baratas e acessíveis. Hoje, armas sofisticadas podem cair nas mãos de qualquer um e se tornar uma ameaça à sociedade. Isso vale não apenas para grupos extremistas, mas também para psicopatas como o americano Timothy McVeigh, que explodiu um prédio e matou mais de 100 pessoas em Oklahoma.
Veja – O senhor acha que o terrorismo será um fator determinante no modo como viveremos no futuro?
Toffler – Vários países, não apenas os Estados Unidos, terão cada vez mais dificuldades em conciliar segurança com liberdade. Com o objetivo de prevenir ataques terroristas, o governo americano precisará ter mais informações de como as pessoas se comportam, quem está fazendo o quê, quem está entrando onde, quem está freqüentando aulas de vôo na Flórida, e assim por diante. A necessidade de fazer isso põe em risco certas liberdades civis que sempre foram colocadas em primeiro lugar nos Estados Unidos e em muitos países. A tendência é que as pessoas tenham cada vez menos liberdade de ir e vir sem ser vigiadas.
Veja – Como as pessoas serão vigiadas?
Toffler – Por meio de câmeras digitais, um dos grandes avanços dos anos 90. Os preços foram baixando e hoje qualquer pessoa pode ter uma. Elas já substituem o guarda de trânsito nas ruas e avenidas. Se você ultrapassar o limite de velocidade, não é o policial que vai pará-lo. É a câmera que tira uma foto da placa de seu carro e depois a multa chega a sua casa automaticamente. A tendência é aumentar ainda mais o uso desse equipamento no futuro. Surgirão modelos cada vez menores, mais baratos e mais potentes. Nós vamos criar uma sociedade investigativa.
Veja – Uma sociedade investigativa?
Toffler – Exatamente. No fim dos anos 40, quando o escritor inglês George Orwell criou o personagem Big Brother (O Grande Irmão, em inglês) no livro 1984, ninguém imaginava que pudesse existir na realidade um governo capaz de monitorar todo mundo com o uso de câmeras. Não só isso está acontecendo hoje, como em um futuro próximo homens e mulheres precisarão se preocupar não apenas com o governo observando todos os seus passos, mas também com o que eu chamo de Big Uncle (O Grande Tio, em inglês). Ou seja, as grandes corporações coletarão as imagens e as conversas da população com objetivos de marketing. E passarão a vender as informações entre elas.
Veja – Isso quer dizer que seremos observados sem saber que estamos sendo vigiados?
Toffler – Sim, isso fará parte do nosso dia-a-dia. As empresas vão observar o que fazemos no supermercado, nas lojas, checando absolutamente tudo: nosso comportamento nos corredores, em frente às prateleiras, tudo o que perguntamos aos vendedores, comentamos com nossa mulher, marido ou filhos. O objetivo será saber mais sobre o consumidor e lhe servir melhor, reduzir os custos com testes e pesquisas de opinião e obter lucros vendendo as informações no mercado.
Veja – Se o senhor pudesse, o que mudaria nas previsões feitas em seus livros?
Toffler – Manteria os temas centrais exatamente do mesmo jeito. Em O Choque do Futuro, eu disse que as mudanças passariam a acontecer de forma acelerada. E que as pessoas e as instituições teriam dificuldades em lidar com essa rapidez. Todos se sentiriam obrigados a ter respostas imediatas, ficariam confusos na hora de tomar decisões e sofreriam muito por causa disso. Isso está absolutamente correto. Mas eu mudaria alguns detalhes. Vários exemplos que usei para ilustrar meu ponto de vista não se tornaram realidade.
Veja – O que não aconteceu?
Toffler – Eu escrevi que quando tudo começasse a mudar de modo acelerado muitas coisas se tornariam temporárias. Isso está correto. Nós temos produtos descartáveis, idéias descartáveis. Periodicamente, somos levados a jogar fora estruturas empresariais inteiras. Somos obrigados a jogar amigos fora. Escrevi que teríamos roupas descartáveis, feitas de papel. Não precisariam ser lavadas, pois seriam descartadas depois de usadas. Bem, isso não aconteceu. Eu também mudaria o que disse sobre clones.
Veja – Por quê?
Toffler – Em 1970, ou seja, trinta anos antes de sair qualquer publicação científica sobre a clonagem, eu disse que iríamos clonar animais. Também disse que iríamos clonar humanos. Acredito que isso vá acontecer um dia. Meu erro foi apenas temporal. Pensei que a clonagem iria ocorrer em 1985, mas demorou bem mais.
Veja – Em que área científica o senhor prevê mudanças mais radicais no futuro próximo?
Toffler – Analisando as tecnologias que estão sendo desenvolvidas nesse exato momento, posso dizer que os maiores avanços serão no setor agrícola.
Veja – Como será esse processo?
Toffler – A agricultura do futuro não terá como prioridade aumentar a quantidade de alimentos, e sim a criação de tecnologias para melhorar a qualidade da produção agrícola. Com os avanços nos estudos da genética, seremos capazes de criar produtos cada vez mais resistentes e de custo mais baixo. A China e a Índia, que têm as maiores populações do mundo, grande parte delas vivendo em áreas rurais, estão investindo pesado em tecnologia agrícola. Com esses avanços, acredito que será possível erradicar a miséria em muitos países em algumas décadas. É claro que essa é ainda uma idéia utópica, pois não é possível fazer isso com as condições atuais de trabalho nas áreas rurais. Será preciso investir mais na educação para que esses avanços realmente aconteçam.
Veja – Os alimentos transgênicos são o resultado de avanços tecnológicos, mas enfrentam grande resistência dos ambientalistas. Por que é assim?
Toffler – Ironicamente, as ONGs, que sempre se mostraram preocupadas em combater a pobreza global e a fome, hoje são as mais interessadas em atacar a produção de transgênicos. Na Europa há ONGs tentando bloquear a importação de alimentos transgênicos de países pobres da África. Com o boicote, esses países foram forçados a diminuir a produção de alimentos. Veja que tudo isso ocorre sem que haja evidências de que os transgênicos trazem riscos para a saúde. Milhões de pessoas já ingeriram esse tipo de alimento e não há comprovação alguma de que tiveram a saúde prejudicada.
Veja – Quais são as conseqüências da batalha contra a pesquisa genética na produção de alimentos?
Toffler – As campanhas promovidas por esses grupos e pela mídia sensacionalista causam pânico desnecessário. Com essa atitude, obrigam os países e as empresas a reduzir a produtividade e a usar métodos primitivos na agricultura. Ou seja, a frear o desenvolvimento econômico e tecnológico. Apesar disso, eu tenho uma visão otimista no quadro geral. Os países do Primeiro Mundo estão investindo bastante em tecnologia e pesquisas de transgênicos. Acredito que aos poucos os alimentos geneticamente modificados começarão a ser aceitos pela sociedade e em um futuro próximo farão parte do dia-a-dia de todas as pessoas.
Veja – As pesquisas espaciais, que tanto furor causavam há trinta anos, hoje despertam pouca atenção. O senhor acha que um dia conquistaremos o espaço?
Toffler – Nós colonizaremos outros planetas ou outros corpos celestes. No futuro, vamos encontrar mecanismos que possam tornar possível essa empreitada. Hoje ainda é inviável e não deve ocorrer em vinte ou trinta anos. Mas vai acontecer.
Veja – O que faz o senhor ter tanta certeza disso?
Toffler – Minha mulher, Heidi, e eu acompanhamos há anos o trabalho de um grupo de cientistas da Nasa. Eles querem saber se os humanos podem viver no espaço. O objetivo é descobrir se há possibilidade de as células permanecerem saudáveis num ambiente sem gravidade. Ou seja, teoricamente, se suas células fossem modificadas, o homem poderia sobreviver bem nesse tipo de ambiente. Os estudos ainda estão em fase inicial, mas já indicam que a conquista do espaço é um sonho possível.
Veja – O senhor previu que a tecnologia causaria mudanças drásticas na família. A estrutura familiar realmente sofreu alterações nas últimas décadas, mas o que a tecnologia tem a ver com isso?
Toffler – As novas tecnologias nunca vêm sozinhas. É um pacote: mudanças tecnológicas, seguidas de mudanças sociais, políticas e culturais. Nos Estados Unidos, esse conjunto de mudanças nas últimas décadas significou um novo modo de vida. A força de trabalho que gerava riqueza passou do uso do bíceps para o uso do cérebro. As pessoas depararam com um novo tipo de economia que mudou praticamente todos os valores da sociedade. Os computadores começaram a ser usados entre o fim da década de 50 e o início dos anos 60. As feministas logo perceberam que as novas tecnologias, que requeriam o uso do cérebro em vez do uso dos músculos, tornariam possível a ocupação de mulheres em postos de trabalho que antes eram prioridade dos homens. Isso realmente aconteceu. Quanto mais os computadores iam se expandindo, mais mulheres começavam a trabalhar. Isso afetou a estrutura familiar e a criação dos filhos.
Veja – Isso foi inesperado?
Toffler – Ninguém imaginava. Anos antes de O Choque do Futuro ser publicado, perguntei a vários especialistas qual seria o futuro da família. Naquela época, os pais iam ao trabalho, as mães ficavam em casa, e cada casal tinha dois filhos, em média. Esse modelo predominava em todas as cidades industriais. Os especialistas opinaram que nada iria acontecer à família, que o núcleo familiar já estava estabelecido e ninguém poderia mudá-lo. Eu duvidei. Não se pode mudar a tecnologia, o trabalho, a base econômica da sociedade sem esperar que também haja mudança na estrutura familiar. Uma coisa é conseqüência da outra. Hoje, a família tradicional é minoria, pois a maioria das mães sai para trabalhar em vez de ficar em casa tomando conta dos filhos 24 horas por dia. Essa foi a primeira mudança em massa.
Veja – O senhor acredita que haverá outras mudanças na vida da família?
Toffler – As mudanças que vemos hoje devem continuar acontecendo. As famílias continuarão menores que no passado, teremos pais solteiros, casais divorciados que se casam de novo duas, três vezes. A sociedade começa agora a aceitar o casamento de gays. O que nós vemos é uma diversificação da família. Nos últimos anos, os americanos começaram a questionar os efeitos dessas mudanças no desenvolvimento de seus filhos. Eles querem desacelerar o processo, mas eu não vejo como voltar atrás.
Veja – O movimento zen, que inclui filosofia, meditação, ioga e esoterismo, tem crescido nos últimos anos. É uma moda passageira ou veio para ficar?
Toffler – Eu acho que alguns detalhes específicos são apenas passageiros, mas há algo maior nisso tudo. O movimento zen é um profundo ataque às idéias e aos valores do iluminismo. O movimento iluminista, dos séculos XVII e XVIII, promoveu a ciência, o ceticismo e o conceito do progresso. Foi o oposto da religião. Naquele tempo, havia um grande abismo entre religião e ciência. A tendência é que as duas coisas se aproximem cada vez mais.
Veja – O que deve acontecer com as religiões?
Toffler – A característica das religiões é a mesma da família. Elas estão se diversificando graças ao acesso cada vez mais fácil à informação. Dentro da mesma religião haverá mais grupos distintos, com idéias e comportamentos diferentes um do outro, principalmente no catolicismo e no protestantismo. Aumentará a competição entre as religiões e os grupos lançarão campanhas de marketing para conquistar fiéis. Nós já vemos um pouco disso hoje, mas com certeza será mais freqüente no futuro.
http://veja.abril.com.br/151003/entrevista.html

Acesso Público à Internet

Possibilidades e Comunicação

Subbiah Arunachalam
O advento da Internet trouxe consigo possibilidades até então inusitadas para a criatividade humana, o acesso à informação e a comunicação global. Quando essas possibilidades foram de fato traduzidas em um acesso público e amplo à Internet? É difícil estabelecer uma data, mas alguns avanços fundamentais podem ser identificados, bem como seus principais responsáveis.
Bastante antes do surgimento da Internet, o movimento de contra-cultura - Vietnã, as tecnologias alternativas, etc. - deu lugar à primeira rede comunitária, quando foi desenvolvido o sistema Community Memory no início dos anos 60, em São Francisco, na Califórnia, por um grupo de hackers. Depois, em 1986, o Cleveland Free-Net, de Ohio, iniciou uma nova geração de redes comunitárias. As Free-Net logo atraíram milhares de novos usuários e estabeleceram-se novos sistemas em diversas cidades, a maior parte localizada na região meio-oeste dos EUA. Essas redes de computadores com acesso público e gratuito permitiram às pessoas não apenas o acesso e o intercâmbio de informações, mas também deu-lhes poder.
O ano de 1971 assistiu a dois principais avanços. A invenção de Raymond Tomlinson de um programa para a troca de correios eletrônicos na ARPANET, a rede de cientistas que trabalhava em pesquisas relacionadas à defesa, mudou permanentemente a visão das pessoas acerca dos computadores e da comunicação humana; e o Projeto Gutenberg, de Michael Hart, que disponibilizou em forma eletrônica livros não sujeitos a copyright e que levou à criação de grandes volumes de conteúdo eletrônico a serem compartilhados no mundo inteiro. Em 1973, ocorreram mais dois avanços. Vinton Cerf e Robert Kahn apresentaram os conceitos básicos da Internet com base no TCP (do inglês Transmission Control Protocol, o protocolo de controle de transmissão, que mais tarde viria a ser chamado de TCP/IP) em um encontro na Universidade de Sussex e a ARPANET ganhou sua primeira conexão intercontinental - então com a Universidade College of London, na Inglaterra. O início dos anos 80 assistiu à adesão à rede de muitas instituições não ligadas ao setor da defesa, o que aumentou o número de usuários em cerca de dez vezes. Em 1985, a Internet já estava bem estabelecida como uma tecnologia de apoio a uma ampla comunidade de pesquisadores e desenvolvedores e estava começando a atrair outras comunidades. O correio eletrônico, o e-mail, estava sendo usado de forma ampla entre diversas comunidades, com freqüência com sistemas diferentes.
A primeira prestação de serviços comerciais de Internet foi oferecida pelas empresas PSI e AlterNet no início da década de 90. Em agosto de 1991, o CERN lançou a World Wide Web, o principal marco na história do acesso público à Internet. Em 15 de setembro de 1993, a administração Clinton lançou formalmente o programa NII (do inglês National Information Infrastructure) nos EUA, graças às iniciativas do então vice-presidente Al Gore. A versão 1.0 do navegador da Web Mosaic também foi lançada em 1993 e, em 1996, o termo “Internet” era uma moeda comum, referindo-se quase que inteiramente à World Wide Web.
Embora o novo desenvolvimento tivesse sido comparado às highways (rodovias) norte-americanas, que na geração anterior tinham transformado o mundo dos transportes, ficou logo claro que a Internet seria mais do que uma ‘super-rodovia de informações’, podendo dar acesso a mais informações, em uma distribuição rica e funcional, organizada de maneira inteligente. É nisso que a Internet difere consideravelmente da biblioteca tradicional, o lugar em que as pessoas vão à procura de informações.
A popularidade crescente da comunicação por meio do computador suscitou discussões sobre muitos aspectos fundamentais da interação social, incluindo questões de privacidade, comunidade, intercâmbio cultural, propriedade do conhecimento e controle de informações por parte do governo - todas elas relacionadas ao acesso público.
O que é o acesso público?
O acesso público inclui o acesso à tecnologia (computador, conexão, banda larga, etc.) e o acesso a todo o conteúdo armazenado na “maior rede artificial do mundo”, que é como a revista Newsweek chama a Internet. Dentre esses dois elementos, o segundo é hierarquicamente superior ao primeiro, uma vez que a tecnologia se subordina ao conteúdo (conhecimento) que pode comportar. Isso é semelhante a levar água a um vilarejo por meio de uma canalização, quando então é evidente que a água transportada é mais importante do que os canos. Tanto o acesso à tecnologia quanto o acesso ao conteúdo podem ser gratuitos ou pagos. O conteúdo pode ser em formato de texto, áudio, vídeo ou multimídia. A conexão pode se dar por meio de diversas tecnologias, que variam da conexão discada, que utiliza uma linha telefônica e um modem, a equipamentos como computadores de bolso e serviços de wi-fi (telefones inteligentes, consoles de jogos eletrônicos, etc.).
O público pode utilizar o acesso à Internet para enviar e receber mensagens eletrônicas, fazer parte de listas de servidores e de grupos de discussão, bem como para buscar informações. Os cientistas também a utilizam para a pesquisa colaborativa e as pessoas comuns para se comunicar com outras pessoas através de «bate-papos» ou de voz sobre IP (VoIP). Os usos mais recentes do acesso à Internet incluem o intercâmbio de dados por tecnologia P2P, o compartilhamento de músicas, a criação de diários pessoais (os chamados blogs) ou de diários pessoais em vídeo hospedados na Internet (os chamados videoblogs), o jornalismo-cidadão, o formato RSS de notícias vindas de diferentes fontes e o podcasting (rádio via Internet).
Fora de casa e do escritório, o público pode acessar a Internet de bibliotecas públicas e cibercafés e, de algum modo, de instituições de ensino e dos cada vez mais difundidos telecentros, assim como de saguões de hotéis e aeroportos equipados com o acesso wi-fi.
A vasta quantidade de informações que pode ser acessada por qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer momento, sem custo algum, pode ser chamada de informação como um bem comum. O acesso público à Internet se baseia na idéia de que, mesmo nas economias de mercado dominadas pela geração de lucro, a propriedade comum e o controle dos recursos de informação podem ser eficazes.
Rumo ao acesso universal no mundo
O principal debate hoje volta-se para a ‘universalização’ do acesso. Por que a universalização é tão importante? Pesquisadores como Ernest Wilson se preocupam com o fato de que, na falta do acesso universal, a rápida difusão da Internet nas organizações, através das culturas e nas sociedades das nações industrializadas pode ampliar o hiato multidimensional que as separa das nações em desenvolvimento, exacerbando um problema prático e moral já significativo. Larry Press acredita que a comunicação flexível e de baixo custo proporcionada pela Internet pode levar a condições melhores em produtividade econômica, educação, assistência médica, entretenimento, consciência de mundo e qualidade de vida nas nações em desenvolvimento e nos bolsões de pobreza dentro das nações, reduzindo assim a disparidade. Há inúmeras barreiras ao acesso universal. Enquanto na maior parte da América do Norte e da Europa ocidental, a Internet tem uma grande difusão e praticamente qualquer cidadão que queira acessá-la pode fazê-lo, em muitas das nações em desenvolvimento, particularmente na África sub-saariana, apenas um pequeno percentual da população pode ter esse acesso, ainda assim com a largura de banda extremamente baixa e o custo compondo uma fração substancial de sua renda mensal. Em comparação aos países desenvolvidos, o número de computadores, telefones, etc. por milhares de habitantes e a largura de banda na maior parte desses países são muito baixos, estando ainda distribuídos de forma irregular. É no sentido de superar essa ‘barreira digital’ que os países em desenvolvimento estão pleiteando a formação de um Fundo de Solidariedade Digital .
Em muitos países em desenvolvimento, esforços têm sido feitos no sentido de superar a barreira digital ou a falta de tecnologia por meio da instalação de telecentros de propriedade comunitária, os quais reúnem e fornecem as informações necessárias para a população local.
O desenvolvimento de telecentros
Os telecentros, também conhecidos na França como pontos de acesso público ou no México como centros digitais comunitários, diferem dos cibercafés pela forma como funcionam. Os cibercafés, em sua maioria, fornecem aos usuários conexão com a Internet e, quando necessário, uma introdução muito elementar ao uso do equipamento. Eles operam em um estabelecimento do tipo self-service. Os telecentros têm como objetivo acompanhar o uso comunitário da Internet (educação, saúde, pequenos comércios, etc.). São, em geral, abertos em locais onde não existem cibercafés e destinam-se a comunidades que estão a priori excluídas da sociedade da informação. Além de disponibilizar equipamentos e conexões, os telecentros dão treinamento e assistência sobre os diversos usos que deles possam ser feitos (por exemplo, ajudar a população local a desenvolver aplicativos comunitários).
Na prática, a diferença entre os telecentros e os cibercafés não é de todo clara e os dois podem se confundir, de acordo com os objetivos daqueles que os administram e o modelo de desenvolvimento selecionado.
Na verdade, há três modelos principais para o estabelecimento de telecentros:
Os telecentros mantidos pelas autoridades públicas locais ou federais. Por exemplo, uma cidade como Brest na França criou de forma sistemática uma infra-estrutura de equipamentos para que cada habitante tenha um ponto de acesso público a menos de 300 metros de sua casa. Entre 1999 e 2001, a Argentina implementou um amplo programa de infra-estrutura, que envolveu a instalação de Centros Comunitários de Tecnologia (os CTCs) . O governo da Índia seguiu a mesma estratégia em seus estados do norte e a maior parte dos planos nacionais da sociedade da informação agora inclui projetos de telecentros sob a insígnia “inclusão social”.
Os telecentros que são a iniciativa de um grupo de pessoas de uma localidade, um grupo voluntário ou uma escola. Eles, com freqüência, recebem apoio de ONGs ou de entidades de auxílio internacional em sua fase inicial. Como exemplo, temos a agência de desenvolvimento canadense IDRC e a agência holandesa IICD, que desenvolveram planos de apoio abrangentes para os telecentros no início de 2000. A UNESCO também apoiou muitos Centros de Multimídia Comunitários (os CMCs) para promover o fortalecimento de comunidades e enfrentar a barreira digital, combinando a difusão comunitária com a Internet e tecnologias relacionadas.
Os telecentros que foram projetados como empresas privadas, com planos de negócio específicos, e que podem existir apenas onde as necessidades básicas possam ser atendidas. Embora sua atividade os aproxime dos cibercafés, eles ainda se dedicam a atender as necessidades da comunidade.
Esses modelos estão em funcionamento, com fre qüência mesclados. As primeiras experiências datam do final dos anos 90 e, como muitos telecentros fecharam desde então, é possível identificar determinadas condições que são essenciais (embora sozinhas não sejam suficientes) para o sucesso dos telecentros:
O lançamento de um telecentro que responda genuinamente às necessidades da população local, necessidades essas que variam bastante não apenas de um país para outro, mas de uma cidade para outra ou mesmo dentro de uma mesma região;
Fundos para o treinamento de instrutores e não apenas para equipamentos;
Fornecimento de software freeware, que permite autonomia tecnológica e evita o reinvestimento regular em aplicativos e atualizações;
A existência de uma infra-estrutura mínima, que permita o funcionamento técnico (energia elétrica, viabilidade das acomodações, etc.);
A presença em espaços que já atendam outras necessidades da população local que não sejam de conectividade (postos de saúde, centros sociais, bibliotecas e escolas);
A construção de um modelo de desenvolvimento que permita gradualmente a independência financeira dos financiadores.
Muito das falências se deveu ao fim de subsídios externos. Os ponto de acesso público ou telecentros se ¬desenvolveram de forma significativa na América Latina e no Caribe e muitos deles uniram suas forças na rede de intercâmbio .
É claro que a África é o continente em que tais centros tiveram mais problemas em se manter em funcionamento. A baixa densidade populacional, o baixo nível de letramento, a cultura oral e a qualidade ruim do serviço fornecido pelas operadoras significam que o desenvolvimento da Internet é difícil em sua totalidade. Além de todas essas dificuldades gerais, os telecentros ainda confrontaram a necessidade estrutural de encontrar rendas independentes: em áreas com solvência, os cibercafés se espalharam com grande velocidade, impedindo o estabelecimento de telecentros com renda mista; em áreas sem solvência, os financiadores internacionais logo se cansaram de financiar projetos que eram com freqüência muito ambiciosos já de início (a África é o continente em que as visões centradas nos países do hemisfério norte da sociedade da informação foram transpostas sem necessariamente levar em conta as necessidades locais, com isso condenando alguns projetos a caírem em desuso).
Por outro lado, a Índia multiplicou a experiência dos telecentros, adotando modelos diferentes, incluindo aqueles com geração de receita e os de propriedade comunitária, bem como telecentros mantidos pelo governo.
Um bom exemplo de um modelo de propriedade comunitária são os centros de conhecimento da cidade, estabelecidos pela Fundação de Pesquisa M S Swaminathan (MSSRF) em diversas pequenas cidades no sul da Índia . O uso da Internet mais conhecido nesses telecentros é a difusão, em um sistema público de endereços, de previsões de altura das ondas na Costa Pondicherry, por meio do carregamento de informações do site do Departamento da Marinha dos EUA, para que os pescadores das cidades costeiras possam decidir se é seguro para eles aventurar-se no mar em um determinado dia. Desde que esse serviço começou a funcionar em 1999, não houve mais uma única morte no mar nessas cidades. Em colaboração com a OneWorld International, a Fundação MSSRF instalou a Open Knowledge Network (OKN) ou rede aberta do conhecimento, que conecta as comunidades rurais da Ásia e da África, para o intercâmbio de informações locais, de conhecimento indígena e de práticas ¬tradicionais . Além da Internet, a OKN utiliza telefones celulares e rádios para a comunicação.
Os eChoupals de TICs são um bom exemplo de um modelo com geração de receita. O Centro Nacional de Informática do Governo da Índia instalou vários telecentros nos estados do nordeste daquele país. Graças às iniciativas tomadas pela MSSF, foi formada a Aliança Nacional, talvez a maior parceria entre diversos agentes sociais em curso - para levar a revolução do conhecimento a cada uma das 638.000 pequenas cidades da Índia até a véspera do sexagésimo aniversário da independência da Índia . O governo da Índia prontificou-se a atender uma grande parte dos custos, até o montante de $1.500 milhões de dólares.
Enquanto, de modo geral, as tecnologias tendem a ampliar as desigualdades e favorecer os que as adotam primeiro, ao custo daqueles que chegam depois, graças ao fluxo de informações livre e desimpedido que facilita, a Internet é inerentemente uma tecnologia democratizante e pode transformar o acesso às informações em um campo de ação. Como podemos converter esse potencial inerente em realidade? É aqui que reconhecemos o grande valor da estratégia do ‘bem comum’ para o compartilhamento de informações.
O bem comum e o compartilhamento de informações
Vejamos como a estratégia do bem comum para divulgação do conhecimento científico influencia a forma como a pesquisa científica é realizada em todo o mundo. Esse exemplo já amadurecido mostra o impacto do conceito de bem comum na difusão do acesso público global ao conteúdo da informação.
Há mais ou menos 15 anos, Paul Ginsparg, então no Los Alamos National Laboratory, pensou em um repositório central de artigos de pesquisas na área de Física. Hoje o “arXiv” prospera com sua sede em Cornell e tem mais de 15 sites espelhados (alguns deles em países em desenvolvimento) . Steve Lawrence, na época no Laboratório de Pesquisas NEC, em Princeton, iniciou o CiteSeer, que não espera os autores enviarem ou depositarem seus arquivos, mas fareja na Internet e coleta todos os artigos relacionados a ciência da Computação e áreas afins. Stevan Harnad, em Southampton, criou o Cogprint, um repositório de ciências cognitivas. Ele também escreveu alguns artigos provocativos sobre o que ele chama de “proposta subversiva” para expandir a “scholarly skywriting”, de maneira a que os cientistas sejam capazes de escrever e publicar na Internet para que todos possam ler. Seguindo esse impulso, nos últimos anos, alguns cientistas começaram a colocar seus artigos de pesquisa em repositórios institucionais e interoperáveis de acesso aberto - além de publicá-los em revistas arbitradas de sua escolha. Os programas de software para se instalar esses repositórios de textos integrais são totalmente gratuitos. O protocolo de interoperabilidade (OAI-PMH ) e o programa de software a ele associado permitem que um usuário pesquise todos os artigos sobre um determinado assunto ou de um determinado autor de qualquer repositório (localizado em qualquer lugar do mundo), como se todos estivessem em um único (e universal) repositório, também de forma totalmente gratuita.
Hoje há mais de 400 desses repositórios institucionais interoperáveis, dando acesso a milhares de textos integrais de artigos de pesquisa. Isso é especialmente útil para os cientistas dos países em desenvolvimento. Peter Suber mantém um blog [Open Access News] e relata de forma detalhada os avanços do movimento pelo acesso aberto em todo o mundo .
Juntamente com os repositórios de acesso aberto, há também as revistas de acesso aberto, pelas quais os leitores e bibliotecas não precisam pagar a assinatura. Centenas de revistas científicas- incluindo algumas centenas provenientes de países em desenvolvimento - são agora de acesso aberto.
Acesso ao conhecimento em todo o mundo
Pode-se fazer um paralelo entre os telecentros e os repositórios de acesso aberto. Ambos utilizam os avanços da tecnologia para incluir os excluídos e disponibilizam muitas informações necessárias a um baixo custo, seguindo a estratégia do ‘bem comum’. Ambos estão superando um sério problema, unindo de forma inteligente a tecnologia com a estratégia do bem comum. Ambos incentivam o compartilhamento e a solidariedade. Ambos estão distintamente prontos para ¬aumentar a produtividade geral do mundo como um todo e levar a uma maior felicidade coletiva. Soa quase como uma utopia.
Porém, muitas editoras, incluindo algumas sociedades científicas, estão trabalhando para conter o progresso do movimento pelo acesso aberto, pois o vêem como uma ameaça potencial a seus interesses comerciais. Por outro lado, muitas agências, como a Wellcome Trust, que financiam os cientistas na realização de pesquisas são fortes defensoras do movimento.
Do ciberespaço ao mundo real
Nos primeiros tempos da Internet, havia um sentimento de que ela nos dava a liberdade de fazer as coisas independentemente dos governos e da legislação do país. De fato, em fevereiro de 1996, John Perry Barlow, um ativista de Internet, publicou a “Declaração de ¬Independência do Ciberespaço”, na qual declarou: “Governos do mundo industrial (...) em nome do futuro, peço a vocês do passado que nos deixem em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm a independência que nos une. (...) Vocês não têm direito moral de nos impor regras, nem ao menos de possuir métodos de coação a que tenhamos real razão para temer. (...) O espaço cibernético não se limita a suas fronteiras.” E a Internet se tornou uma das mais importantes ferramentas para a defesa da cidadania, utilizada então para a pesquisa, a educação pública, para a organização de discussões políticas, a coordenação e muito mais.
Infelizmente, a tecnologia digital também trouxe novas formas de cercar as informações que minam o direito público de utilizar, compartilhar e reproduzir informações. Tais formas ameaçam minar o discurso político, o discurso livre e a criatividade, os quais são necessários para uma democracia saudável. E, na realidade, os governos podem controlar e efetivamente controlam bastante o que é veiculado na Internet. Como foi apontado na revista The Economist, “a Internet é parte do mundo real. Como todas as fronteiras, foi selvagem por um tempo, mas os guardas sempre aparecem no final.”
Mas o caráter democrático da Internet e sua capacidade de levar a uma base de conhecimento ‘quase infinita’ foram colocados em questão. Se o acesso raro à Internet, com altos custos e de baixa qualidade contribuem para a formação da primeira barreira ao acesso público nos países pobres, as políticas e a postura de instituições e governos conduzem à segunda barreira. Conforme foi mostrado pelo Fundo Carnegie para a Paz Internacional (CEIP), os governos podem impedir que os cidadãos visitem determinados sites que eles consideram prejudiciais para o interesse nacional, controlam o acesso a sites de outros países, monitoram o que é colocado na Internet pelos cidadãos e podem literalmente isolar seu povo do resto da rede . Escolas e pais podem utilizar filtros para livrar seus filhos da presença cada vez maior de sites obscenos na Internet. Como podemos nos livrar e livrar também nossos filhos da presença ameaçadora na Internet de imagens de nudez, atos sexuais, drogas, álcool, fumo, violência e cultos de profanação, grupos intolerantes, racistas e extremistas, jogo ilegal e negócios fraudulentos? O desafio agora é como podemos equilibrar nossa busca pela liberdade e pela abertura com a necessidade de refrear a pornografia, a obscenidade e a intolerância.
Esse é o grande dilema enfrentado pelas bibliotecas que oferecem acesso público à Internet. Enquanto quase todas as bibliotecas públicas dos EUA oferecem ao público acesso gratuito à Internet, a situação é completamente diferente em quase todos os países em desenvolvimento.
Como disse Nancy Kranich, o acesso público à Internet é vital para reacender a participação cívica, para reivindicar o espaço público e promover o interesse público na era digital.
Há duas formas de se considerar o acesso público na Internet:
Permitir que os cidadãos do mundo utilizem as ferramentas da rede de informações e ganhem acesso às informações disponíveis, assim como para criar as suas próprias e divulgar suas habilidades.
Parantir o acesso livre às informações essenciais, para que as oportunidades dadas pela Internet sejam realmente utilizadas para disseminar mundialmente o acesso de todos ao conhecimento.
http://vecam.org

Uma Nova Esfera Cognitiva

Uma Nova Esfera Cognitiva

Mohammed Elhajji
O objetivo do presente artigo é tentar apreender a questão da globalização a partir de seus aspectos técnico-tecnológicos e culturais-civilizacionais. O processo é de natureza essencial¬mente tecno-organizacional, pois a particularidade da época contemporânea reside na rearti¬culação das relações sociais e de produção em torno das novas tecnologias de informação e de comunicação (NTICs). A especifi¬cidade dessas tecnologias consiste no deslocamento das instân¬cias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, e a instituição do princípio da instantaneidade como base de regulação de nossa experiência signifi¬cativa. A globalização diz respeito a um modo de inscrição das relações de sentido num novo quadro conceptual, marcado por uma temporalidade tecnológica e informacional inédita, cujos desdobramentos estruturais não são apenas de ordem organiza¬cional, mas antes civilizacional, comparáveis às mutações decor¬rentes da Renascença ocidental.

Introdução

Mundialização ou Globalização?... A terminologia sofre de uma certa dose de incerteza como geralmente acontece nas novas áreas do saber. Enquanto em inglês, o conceito é reduzido a uma só palavra (“globalization” ou às vezes “globalisation”), as línguas de origem latina dispõem de dois termos-definições: “mundia¬lização” e “globalização”. Em português como em espa¬nhol, essa hesitação se traduz pela tendência a usar indiferen¬temente um ou outro. Já a literatura de língua francesa obnubi¬lada por suas veleidades de resistência à hegemonia anglo-saxã, geralmente opta pela “mondia¬lisation” em vez de “globalisation” - suspeita de anglicismo!... A ques¬tão, porém, não é apenas de ordem lexical ou etimológica, mas sim conceptual e teórica.
Mundialização, com efeito, não é globalização. É uma etapa que a precedeu e até a prenunciou de certo modo, sem todavia ter contido a totalidade de suas virtualidades ou esgotado o conjunto de suas possibilidades e seus desdobramentos. O fenômeno de mundialização era de natureza essencialmente espacial, relativo à concepção copernicana e finita do planeta, à descoberta de novas regiões do mundo e sua conquista pelos europeus. Enquanto o processo de globalização se inscreve na ordem info-temporal e tecno-organizacional, na medida que a particularidade da época contemporânea reside na rearticulação das relações sociais e de produção em torno das Novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (NTICs). A especificidade dessas tecnologias, por sua vez, consiste no deslocamento das instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, e a instituição do princípio de instantaneidade e de imediatez como base de regulação de nossa experiência significativa. Trata-se, portanto, de um novo conceito de velocidade, não mais físico mas cognitivo, relativo não mais às distâncias físicas, mas sim ao volume de informação gerada ou acessada.

1. A Esfera Cognitiva

A globalização, pois, diz respeito a um modo de inscrição das relações de sentido num novo quadro conceptual, marcado por uma temporalidade tecnológica e informacional inédita, cujos desdobramentos estruturais não são apenas de ordem organiza¬cional, mas antes civilizacional, comparáveis às mutações decor¬rentes da Renascença ocidental. Se a época seiscentista colocou o sujeito moderno-ocidental no centro do espaço-mundo, excluindo e empurrando às margens da humanidade tudo que não cabe no seu quadro óptico e teórico (theoria = ação de olhar ou examinar), a globalização pôs este mesmo sujeito no centro do tempo-mundo, impondo uma nova perspectiva civilizacional de natureza tecno¬lógica, temporal e informacional única e universal a toda a socie¬dade humana. O trabalho de edificação desta nova “semiose” se dá, principalmente, através das novas tecnologias e redes computa¬cionais que prefiguram novas fronteiras, não mais físicas mas sim eletro-cognitivas ou cogni-computacionais, e uma nova esfericidade do mundo, não mais geométrica mas sim episte¬mológica e cognitiva. As coordenadas dessa esfera cognitiva, contudo, correspondem, rigorosamente, aos pontos de projeção dos planos éticos e estéticos do Ocidente. No processo de trans¬ferência de nossos mapas semân¬ticos da dimensão espacial para a temporal, pois, o Ocidente não se apre¬senta mais como região geográfica, mas sim como fato semió¬tico ou espectro cognitivo, cujos contornos não são mais espaciais, mas sim teóricos episte¬mológicos, técnicos e tecnológicos.
Ou seja, a globalização, enquanto processo hegemônico oci¬dental, achata tanto os espaços outros como os tempos alheios. Por¬tanto, o que não cabe dentro da esfera cognitiva ocidental simples¬¬mente não existe ou não vale a pena existir; tanto o não branco-europeu como o irracional, o arcaico, o primitivo, as “supers¬tições”, etc. Tudo que não é iluminado pelo ponto de vista ocidental, moderno e racional não passa de uma massa amorfa, sem estrutura clara nem caráter definido. Fora da “semiose” racional, moderna e ocidental (sendo os três conceitos ao mesmo tempo indissociáveis e intersubstituíveis), não há possibilidade de o mundo tomar uma forma coerente; fora do quadro conceptual decorrente desse momento/lugar civilizacional não há mundo inteligível. O que, em definitivo, significa que a razão não reside nas coisas, mas sim na autoridade do olhar que as mede e a instância discursiva que as enuncia.
Ao seu nível estrutural, a globalização é o resultado de um longo processo histórico de desdobramento de uma rede planetária de redes organizacionais que, hoje, ligam Estados, grupos regionais, organismos internacionais e outras entidades institucionais locais e mundiais. Essas redes de sentido, em seu estado acabado, não foram instaladas de uma vez só e a priori por alguma força exógena, mas são, à maneira das sinapses, endógena e rizomaticamente forma¬das e desenvolvidas pelos discursos, fluxos de idéias, pessoas e bens materiais que percorrem o espaço mundial e lhe dão sua dimensão civilizacional. Ainda que o impulso inicial de um sistema universal tenha sido o produto da “semiose” hegemônica ocidental com relação ao objeto-mundo.
De certo modo, pode-se dizer que ao mesmo tempo que as redes crescem em função da multiplicação dos fluxos, estes últimos por sua vez, são estimulados, formulados e regulados pelas partes já existentes do andaime tecno-semântico planetário. Talvez uma metáfora mais crua possa ser encontrada em certos processos patológicos, quando os focos do mal se multiplicam e cobrem partes cada vez maiores do organismo; curioso é constatar que “metásta¬se”, o termo médico que descreve tal situação, seja tam¬bém operacional, num sentido concomitante, na retórica. Pode-se falar em metástase tanto quando o organismo planetário vem sendo transformado e fagocitado pela multiplicação ilimitada de fluxos e redes, como quando há um conjunto de estratagemas retóricos (o discurso globalizante) visando a convencer a totalidade da huma¬nidade que os valores ocidentais são universais e de todos.
Mesmo se os fluxos aparentem uma certa liberdade em seus movimentos de costurar a colcha de retalhos universal, na verdade, nunca se trata de total arbitrariedade ou puro acaso, mas sim de uma dinâmica semântica hegemônica global, que faz do Ocidente não mais o centro físico do espaço-mundo, mas sim uma esfera cognitiva que, ao mesmo tempo, sustenta o arcabouço organiza¬cional chamado sistema-mundo e se sobrepõe a ele, o contém e nele se mantém. Essa esfera cognitiva de natureza altamente fractal, pela qual os fluxos fluem e para a qual convergem, escoa toda a ideologia universalista ocidental e a repercute em cada via e cada nó da rede e cada um dos pontos de apoio da estrutura global. Ou seja, o discurso ocidentalizante do mundo está menos no conteúdo veiculado do que nos próprios processos, tecnologias, técnicas, línguas e linguagens de transmissão de tal discurso e que constituem, propriamente, o que chamamos de “semiose” global.
Tomando a Internet como metáfora, diríamos que essa “semiose” é constituída tanto pelos discursos em circulação como pela própria estrutura técnica-tecnológica que, em si, reproduz uma determinada visão do mundo e uma certa atitude ética-estética diante do semelhante, do diferente e do próximo. A globalização seria menos a instalação material da rede mundial do que a genera¬lização e universalização de seu modelo tecno¬lógico e lingüís¬tico como paradigma das comunicações humanas. A globalização/ampliação da noosfera ocidental não está na rede/Internet, mas sim é a própria rede/Internet como modelo universal de comu¬nicação. Não apenas ela veicula um discurso, mas sim é em si discurso globalizante e ocidentalizante.

http://www.facom.ufjf.br/lumina/doc_provisorio/R4-Mohammed-HP.doc

A NOVA ESFERA COGNITIVA II

2. O Fator V2

Ao nível organizacional, sabemos que a principal característica do quadro tecno-organizacional que sustenta o processo de globalização é a reestruturação e rearticulação das instâncias de produção de sentido da contemporaneidade em torno dos meios de produção, controle e distribuição da informação. O papel central da comunicação nessa nova ordem sócio-tecnológica criou, pois, uma base material tão inédita para o desenvolvimento das ativi¬dades humanas no sistema social e tão específica historica¬mente, que acabou impondo a sua própria lógica à maioria dos processos sociais e condicionando, de maneira fundamental e irreversível, toda a estrutura da sociedade. A importância revoluci¬onária da infor¬matização da sociedade é comparável à invenção da imprensa, da roda, da moeda, do tempo mecânico ou outras semioses respon¬sáveis pelo desencaixe do tempo-espaço, desterritorialização do sujeito e ampliação da sua força de abstração. As conseqüências das atuais inovações tecnológicas são, assim, radicais e irreversíveis tanto em termos de organização social como aos níveis psicológicos e existenciais de nossa condição significativa. As relações sociais e de produção, por exemplo, não consistem mais em uma ação sobre as pessoas e as coisas, mas sim em uma interação entre as pessoas e a informação (pessoas agindo sobre informação e infor¬ma¬ção agindo sobre pessoas). O que leva Alvin Toffler (1991, 1995) a considerar que tais mudanças não representam apenas um novo estágio da época moderna, mas constituem, verdadei¬ramente, uma nova civilização:
O que está acontecendo agora é um processo que podemos chamar de trisecção. O mundo está se partilhando em três partes ou, de maneira mais exata, três diferentes civilizações (...) Falamos em civilização porque não é apenas a tecnologia que está mudando. Toda a cultura está sendo revolucionada. Todas as instituições sociais herdadas da 2a. Onda - a da produção de massa, mídia de massa e sociedade de massa - estão em crise. Da saúde e educação à família e transporte, passando pelo meio ambiente, o nosso sistema epistemológico ou de valores como tempo, espaço etc... A razão pela qual falamos em 3a. Onda em vez de era de informação, era de compu¬ta¬ção ou era espacial é que as mudanças estão acontecendo em todos os aspectos da civilização (www.hotwired.com).
Enquanto sob o capitalismo organizado do século passado, os fluxos informacionais, financeiros, de materiais e de meios de produção e de trabalho eram extremamente arranjados no tempo e no espaço pelas grandes corporações e pelos Estados, o capitalismo flexibilizado atual, fruto do processo de globa¬lização, provoca a expansão e a multiplicação desses fluxos e aumenta a sua veloci¬dade de circulação. Na nova economia glo¬bal, o fato de não ser conectado às redes reguladoras desses flu¬xos de informação, equi¬vale a não existir no mercado. Ou seja, a produtividade e a competi¬ti¬vidade, dentro da nova divisão internacional do trabalho, dependem tanto do posicionamento dos atores com relação aos principais fluxos de informação e às redes que os regulam, como da sua capacidade de produzir e regu¬lar os seus próprios fluxos de informação. O que significa, em termos sociológicos, que a capacidade dos países de industrialização recente de adaptarem-se, produzirem e difundirem as novas tecnologias informáticas passou a ser um fator determinante de seu desenvolvimento. A informatização da sociedade (no sentido amplo) é, de certa ma¬neira, o equivalente histórico da eletrificação para o desenvol¬vimento. Com a diferença fundamental de que não se pode contentar-se de importá-la pronta para uso imediato. É uma tecno¬logia social que exige a difusão em grande escala do saber e a organização de importantes redes informacionais para poder aproveitá-la. Trata-se de um conjunto de técnicas e práticas cujo princípio não é meramente mecânico-científico, mas também social-organizacional. Do mesmo modo que o crescimento da produ¬tividade nas economias industrializadas não resulta apenas do aumento quantitativo do capital ou da mão-de-obra no processo de produção, mas sim da “expressão empírica” da ciência e da tecnologia.
A verdadeira singularidade dessa semiose, todavia, reside essencialmente no seu modo particular de reformular os conceitos de tempo e de espaço e de conjugá-los ao aparato tecnico-tecno¬lógico que constitui, por sua vez, a base da configuração social, econômica e política da época contemporânea. Enquanto a mundialização, realidade econômica e militar pelo menos desde o século XVI, era um processo diacrônico de gestão espacial que implicava necessariamente a conquista territorial, a ocupação material e o controle físico do mundo; a especificidade intrínseca da globalização se inscreve, antes, na dimensão temporal e toma forma no princípio de instantaneidade e de imediatez das relações sociais, políticas e econômicas. Na sucessão das etapas de ampliação da noosfera ocidental e sua imposição ao resto do mundo, pois, a globalização se diferencia da mundialização por seu caráter primordialmente “infotemporal”. O conceito de globalização, portanto, não deve ser entendido em relação ao globo terrestre, mas sim no sentido da globalidade de uma ação, ou seja, a sua reali¬¬zação simultânea em múltiplos pontos do espaço. O que, obviamente, pressupõe uma total sincronicidade entre as várias cenas do processo e a sua moldagem num mesmo tempo único e universal.
Há, hoje, um relógio mundial, fruto do progresso técnico, mas o tempo-mundo é abstrato, exceto como relação. Temos, sem dúvida, um tempo universal, tempo despótico, instrumento de medida hegemônica, que comanda o tempo dos outros. Esse tempo despótico é responsável por temporalidades hierárquicas, conflitantes, mas convergentes (Santos, 1994: 30).
O relógio mundial hegemônico do qual fala Milton Santos é nada mais que o tempo mecânico tecnológico abstrato e vazio, expressão de um longo processo histórico e civilizacional de “desen¬caixe social” e desvinculação da dimensão temporal da espacial, iniciado com a racionalidade moderna ocidental e exa¬cerbado pelo desenvolvimento vertiginoso das tecnologias de comunicação (no sentido amplo). Seu marco estrutural, vivido como estado natural de nossa condição moderna, é o progressivo escamoteamento da dimensão espacial pela temporal e a definitiva reversão de nossos rastros existenciais dos subjetivismos locais para uma abstração relacional a-espacial.
David Harvey afirma, neste sentido, que “a objetivação e universalização dos conceitos de espaço e de tempo permitem ao tempo de aniquilar o espaço” (1993: 261). Por outro lado, ele propõe uma equação matemática que possibilita o cálculo do grau de compressão do planeta em função da velocidade tecnicamente possível para cobri-lo. O que significa que as distâncias entre diferentes pontos do espaço físico são inversamente proporcionais ao tempo necessário para atravessá-las, tornando, assim, virtual¬mente possível a utopia do mundo como “um lugar só”, na medida que o próprio das novas tecnologias de comunicação é, justamente, a instantaneidade. Um “um lugar só”, todavia, que corresponde, necessariamente à visão ocidental deste lugar, e cujo sentido para o resto do mundo não é nada mais senão uma total e abrupta desterritorialização de seu ser social pela semiose hegemônica das tecnologias ocidentais de sentido. Destacando esta violência semântica fruto da conjugação entre o instinto hegemônico do Ocidente e seu discurso tecnológico, David Bolter, no seu livro “Turing’man”, apreende o esforço de imposição do tempo-mundo como um tipo de “última fronteira” do Ocidente, a sua vitória ideológica final:
Assim como o espaço, o tempo é uma mercadoria provida pelo computador, um material para ser moldado tanto quanto possível aos fins humanos (...) Um relógio convencional produz somente uma série de idênticos segundos, minutos e horas; um computador transforma segundos, microssegundos ou não-segundos em informação. A enorme velocidade desta transfor¬mação põe a operação do computador em um universo de tempo que está fora da experiência humana. (...) O tempo eletrô¬nico é o ponto mais avançado deste desenvolvimento (do homem ocidental), a mais abstrata e matemática noção de tempo jamais incorporada à máquina; leva a escala de tempo muito além do limite inferior da percepção humana. Representa o triunfo final da perspectiva européia ocidental, quando o próprio tempo se torna uma mercadoria, um recurso para ser trabalhado tanto quanto um engenheiro de estruturas trabalha o aço ou alumínio (apud. Ianni, 1995: 175).
A radical transformação existencial dessa emergente “expe¬riência significativa da condição humana”, reside na substi¬tuição do conjunto de vivências locais que constituem a perspectiva do espaço real pela esfera cognitiva ocidental incorporada no imediato tempo-mundo real. O princípio motor da nova ordem tecnossocial em expansão, pois, é a velocidade; fundamento inaugural que se traduz pela imposição de um tempo-mundo único e universal e pela imediatez dos modos de regulação das relações sociais e de produção. As mudanças existenciais implicadas pela vivência dessa velocidade exponencial (tanto dos meios de comunicação e das trocas como das inovações tecnológicas) superam de longe, todas as transformações organizacionais experimentadas pela humanidade até hoje. Essa velocidade não é apenas um fator de mudança social ou política, mas sim uma mudança radical em si, e a sua importância estrutural é constitutiva do sistema social, econômico e político global em curso de auto-instauração, e não uma qualidade externa que vem a ele se agregar a posteriori.
Por outro lado, se a velocidade está na base do processo de globalização, este último tem ao mesmo tempo e sinergicamente, um efeito multiplicador sobre essa mesma velocidade. A conexão das diversas fontes de saber pelo mundo, a confrontação das expe¬riên¬cias, a acessibilidade à informação em tempo real e o decalque/recalque reflexivo das vivências efetivas, possíveis e virtuais, compõem uma imensa rede tecnoneuronial global responsável por uma verdadeira fissão intelectual e imaginária - fonte de velocidade ainda maior! Nela, o mundo não se apresenta mais de maneira plana e linear, mas sim caoticamente, à maneira de um hipertexto, sem início, fim, margens ou sentido de leitura único e predeterminado. Trata-se de um fenômeno inédito, de alcance virtualmente ilimitado, onde a velocidade produz uma maior velocidade, e as mudanças geram novas transformações até então insuspeitas. O curso da História toma uma curva de velocidade fatorial, onde a aceleração da vivência vira ela mesma um fator de uma maior aceleração do curso da História. Que, por sua vez, dá um novo impulso à sucessão das relações e dos fatos sociais... propulsando as idéias, os objetos e as pessoas numa espiral sem fim de distanciamento de si e de afastamento do real.
Essa velocidade, enquanto fator estruturante do atual processo de globalização, todavia, não deve ser entendida no sentido de uma equação matemática “tempo/espaço”, mas sim cognitiva “tempo/informação”. Não se trata da definição física clássica da noção de velocidade, relativa ao “tempo necessário para percorrer uma distância dada”, mas sim de uma acepção epistemológica nova: o tempo necessário para acessar ou gerar um determinado volume de informação. Sendo a distância percorrida (o espaço) não mais determinante nas relações de sentido, na medida em que as novas tecnologias de comunicação pressupõem, justamente, a instanta¬neidade das trocas e a subordinação dos localismos geográficos a um mesmo tempo-mundo único e universal1. O grau de velocidade de movimento não é mais mensurável em quilômetros ou em milhas, mas sim em débito de bytes e em fluxo de dados informa¬cionais. E a sua aceleração é relativa à densidade da “infos¬fera” (o conjunto dos sistemas de comunicação, tecnológicos ou huma¬nos, que englobam as estruturas econômicas, políticas, so¬ciais e culturais planetários), na qual é projetada nossa cons¬ciência histórica global em gestação. A importância revolu¬cionária dessa nova configu¬ração psicossocial é compa¬rável ao impacto que teve a invenção da imprensa ou da roda sobre nosso psiquismo, em termos de distanciamento do espaço e de ampliação de nossa capacidade de abstração.
A essa nova forma de aceleração do curso da História e de ampliação da esfera cognitiva ocidental, chamamos de “fator V2” (Velocidade/virtualidade): ponto crítico de velocidade a partir do qual se desencadeia um movimento de virtualização do mundo e das relações sociais; como quando o simulacro precede o real, o nega ou a ele se refere apenas por ricochete. A mesma idéia é desta¬cada por Milan Kundera, ainda que em termos poéticos, quando ele observa que “o grau de lentidão é proporcional à intensidade da memória, enquanto o grau de velocidade é diretamente propor¬cional ao esquecimento”. Sendo entendido o esquecimento como desespacialização ou desenraizamento da memória, afastamento do real e perda dos referenciais necessários à sua ordenação.
O espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem, uma à outra, nada permanece em nosso espírito, e não seria possível compreender que pudéssemos recuperar o passado, se ele não se conservasse, com efeito, no meio material que nos cerca. É sobre o espaço, sobre o nosso espaço - aquele que ocupamos, por onde passamos, ao qual sempre temos acesso, e que em todo o caso, nossa imaginação ou nosso pensamento é a cada momento capaz de reconstruir - que devemos voltar nossa atenção; é sobre ele que nosso pensamen¬to deve se fixar, para que reapareça esta ou aquela categoria de lembranças - explica Maurice Halbwachs (1990: 143).
De certo modo, pode-se falar em “aderência da memória ao espaço” num trabalho de construção da marca subjetiva do indi¬víduo ou do grupo; já que, na verdade, nossos processos mnemô¬nicos são acionados e desencadeados por signos espaciais exter¬nos. Assim, gestos banais como manusear o livro equivalem a recons¬tituir e enriquecer a experiência ritualística existencial do grupo de origem ou das gerações passadas, do mesmo modo que o livro em cima da estante, mesmo depois de lido, continua a dialogar “proustia¬namente” conosco. Enquanto na biblioteca virtual, onde a relação espacial é substituída pela infotemporal, em vez de reconstituir a experiência ritualística existencial de enrai¬zamento num deter¬minado universo psicológico e ima¬ginário, o sujeito se deixa simplesmente envolver na esfera estética cognitiva fruto da racionalidade tecnológica ocidental sem relação obrigatória com seu devir comunitário direto. O mesmo pode ser dito de todas as formas organizacionais virtuais (empresa, universidade, bate-papo, etc.); o que, em termos giddenianos, significa um enfraquecimento da profundidade psicológica do sujeito, uma ameaça à sua segurança ontológica e equivale a um seqüestro da sua experiência pessoal e comu¬nitária. De fato, como observa Maurice Halbwachs,
nosso entorno material leva ao mesmo tempo nossa marca e a dos outros. Nossa casa, nossos móveis e a maneira segundo a qual estão dispostos, o arranjo dos cômodos onde vivemos, lem¬bram-nos nossa família e os amigos que víamos geralmente nesse quadro (...) Não é tão fácil modificar as relações que são estabele¬cidas entre as pedras e os homens. Quando um grupo humano vive muito tempo em lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores (ibid.: 131).
Globalização, pois, é, antes de nada, um movimento de virtuali¬zação do mundo devido à imposição de um tempo universal e despótico que impede a multiplicação e a diversificação das expe¬riências históricas em tempos locais e variados, causando uma desorientação fundamental da realidade sensível e das relações de sentido, e uma perda de parâmetros existenciais para o sujeito definitivamente privado de seu “aqui e agora”.
 

LISTA DE LIVROS PREFERIDOS

Livro Ilustrado de Lingua Brasileira de Sinais Autor: Márcia Honora / Mary Lopes E.Frizanco Editora: Ciranda Cultural A Casa da Árvore Encantada Autor: Pat Hegarty Editora: Ciranda Cultural O Grande livro do Amor Autor: Trace Moroney Editora: Ciranda Cultural Os mais Belos Contos de Grimm Autor(a): Gustavo Mazali / Poly Bernatene Editora: Ciranda Cultural Categoria: Infantil Olhe Mais Perto - Criaturas do Mar Autor(a): Sue Malyan Editora: Ciranda Cultural Categoria: Enciclopédias Minha Primeira Biblioteca Histórias Bíblicas Autor: A.D. Borrill Editora: Ciranda Cultural Categoria: Bíblicos Editora: Ciranda Cultural Quincas Borba Autor: Machado de Assis Categoria: Literatura O Mulato Autor: Aluísio Azevedo Categoria: Literatura Marília de Dirceu Autor: Tomaz Antônio Gonzaga ategoria: Literatura Lira dos Vinte Anos Autor: Álvares de Azevedo Categoria: Literatura

Linda Mensagem de Perdão

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Lista de Filmes

O CAÇADOR DE PIPAS, KELVIM VERSUS KELVIM,NELL,LIBERDADE ELECANDO FILMES SOB A TERRA ( Filmes que trazem catástrofes que poderão ocorrer com a nossa terra) 10,5 – O DIA EM QUE A TERRA NÃO AGUENTOU, 2012 – O DIA DO JUÍZO FINAL, ARMAGEDON, DIAS DE DESTRUIÇÃO, FIM DOS DIAS, LONDRES, METEORO O DIA DO JUÍZO FINAL, O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, O DIA DA DESTRUIÇÃO, PARIS 2010, TEMPESTADE, TERREMOTO, TSUNAMI.


PROVÉRBIOS

A terra atrai tanto que os velhos andam curvados.
(Provérbio armênio)
Melhor bem enforcado do que mal casado.
(Provérbio alemão)
Se alguém está tão cansado que não possa te dar um sorriso, deixa-lhe o teu.
(Provérbio chinês)
Só se pode juntar as mãos quando estas estão vazias.
(Provérbio Tibetano)
Começar já é metade de toda ação.
(Provérbio grego)
As lágrimas dos bons caem por terra, mas vão para o céu, para o seio da divindade. (Provérbio chinês)
Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.
(Provérbio chinês)

Oceano - Mares - Rios

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